Futebol no país da vuvuzela 

Por Kinha Costa

Contaminada pelo vírus da Copa do Mundo, aproveitei para assistir ao primeiro jogo de futebol que rolou em Durban como parte da preparação para a Copa 2010: um amistoso entre o mais rico time do mundo, Manchester United, e o time mais popular da África do Sul, Orlando Pirates. Sobre as diferenças entre os dois escretes, Nelson Rodrigues diria: o abismo secular entre os dois times é óbvio ululante.

Frequentadora do estádio de rúgbi, onde o jogo se realizou, a coisa já me pareceu interessante na fila pra comprar o ingresso: negros e muitos indianos. Brancos? Meia dúzia de estrangeiros à cata de emoções.

O jogo, como não poderia deixar de ser, foi uma batalha entre Golias e anões, apesar de o Manchester colocar em campo o time reserva dos reservas. 4 X 0 no placar. A goleada não foi faraônica porque o Manchester teve dó de bater num adversário tão submisso.

Da visita do Manchester, em 2006, até aqui, muita coisa mudou: em Durban foi construído o estádio mais fantástico do mundo, o Moses Mabhida, entre idas e vindas, Parreira é novamente o técnico da seleção sul-africana, a Bafana Bafana mostra sinais de melhora de amistoso a amistoso e o país transpira confiança nos garotos.

Camarotes vendidos a preço de desfile de escola de samba do Rio, pra empresários e celebridades se confraternizarem, cerveja, estacionamentos e ônibus especiais pra transportar os torcedores e shows de música ao vivo depois dos jogos, nada disso rolava numa partida de futebol há menos quatro anos, neste país.

O espetacular de uma partida de futebol nessas bandas é sem dúvida a torcida que canta, dança, aplaude, vaia e apita vuvuzelas sem que uma cena de violência seja registrada.

A vuvuzela é uma corneta de plástico que os torcedores tocam com as nuances de uma flauta rouca. O som é estranho para leigos, mas a massa entra em transe. O jogo segue orquestrado pelo barulho dessas gaitas africanas azucrinando os times adversários e rasgando o infinito espaço do som. Bonito de ver. Muito louco ouvir.

O país ainda se divide na hora de torcer pelo esporte favorito: os brancos adoram rúgbi. Os negros amam futebol. A raça dos jogadores também é um reflexo do que acontece na sociedade. Atletas negros começam a aparecer nos times de rúgbi e na Seleção Nacional, até porque existe um sistema de cotas, mas ainda não tem um jogador de futebol branco jogando fora do país, por exemplo. O Parreira conseguiu colocar na sua seleção um branco no banco de reservas.
Para os negros, conquistar o espaço dos brancos significa ascensão, mas a recíproca não é verdadeira para a raça branca.

A mudança é lenta, a nação arco-íris, sonho do Mandela, ainda é uma planta em fase de crescimento.

O sul-africano admira o futebol brasileiro, em época de Copa do Mundo, dizer minha nacionalidade gera bons papos sem o clichê de “gostosa”. Ufa! até que enfim não somos somente um corpo que balança. Somos um país de chuteiras, o que parece dar no mesmo, mas a gente nem sente.

* Kinha Costa é profissional free-lancer na área de Comunicação e Relações Públicas e vive na África do Sul.

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